terça-feira, 3 de abril de 2012

Pernambuco na roda dos “bambas”



Por: Joás Benedito e Vitor Chaplin

Há quem diga que o termo “bamba” significa pessoas legais e competentes naquilo que fazem. Outros alegam que o significado é relacionado à pessoa que entende, vive e respira o samba ou uma roda que reúne os melhores sambistas. Isto é, compositores, instrumentistas e intérpretes veteranos que agradam sem distinção de idade ou classe social. Independentemente dos termos que são usados para essa definição, sabe-se que os gêneros musicais, no modo geral, sempre irão se preocupar em divulgar os elementos e as realidades locais vivenciadas pelo povo.



Dificilmente você vai encontrar documentos que comprovem alguma ligação concreta do gênero samba com Estado. Há relatos que apontam para o samba de raiz praticado nos terreiros, fazendo uma junção do coco pernambucano com a chula baiana – uma vertente do samba de roda – que misturou elementos vindos da Europa. Acredita-se que o seu formato característico, nos dias de hoje, se deve às comunidades baianas que habitavam no Rio de Janeiro.


Com relação à dança, segundo o sambista Paulo Perdigão, antigamente, nos salões se praticava a chula misturada com o maxixe – conhecida também como tango brasileiro – que originou um tipo de dança chamada “puladinho”. Hoje muitos utilizam esse gênero no samba de gafieira. Partindo dessa ideia, os componentes das escolas de samba começaram a criar um ritmo em que se dançava para frente, diferente dos sambas anteriores que eram parados e dançados apenas em “rodinhas”.

O termo que antes era usado apenas para definir eventos festivos no começo do século, concretizou-se a partir do momento em que pessoas de várias classes e culturas diferenciadas se reuniam para realizar os seus supostos “sambas” em uma das casas mais famosas do Rio de Janeiro, a casa de Hilária Batista da Silva, conhecida como Tia Ciata, considerada por muitos, uma das grandes influenciadoras do samba carioca. Por conta disso, há quem diga que as rodas de samba praticadas em outros estados, junto com os seus compositores e intérpretes, são meras reproduções cariocas.
Para quebrar esse paradigma, alguns sambistas sentiram a necessidade de divulgar o que é de fato autoral, relacionado ao samba pernambucano. Foi assim que há 7 anos surgiu a Mesa de Samba Autoral de Pernambuco, composta por Paulo Perdigão, Neguinho da Samarina, Rui Ribeiro, Tadeu Jr. e Selma do Samba. Segundo Rui Ribeiro, para participar da roda, a pessoa deve ter uma história de compromisso com o samba. “É fundamental que os participantes da Mesa tenham uma produção própria de sambas e um pensamento solidário e horizontal”, diz o músico.
Foto: Joás Benedito

Considerada um coletivo, a “Mesa de Samba”, com seus integrantes, carrega a missão de difundir os sambas autorais do grupo e dos apreciadores, fortalecendo a defesa da autoria musical de cada um. “Já tivemos momentos que não eram assim. Prevalecia muito o individual e a minha ideia sempre foi a de reunir várias pessoas em um projeto”, afirma Paulo relembrando um dos motivos que o incentivaram a formar o grupo, referindo-se também a alguns integrantes que passaram pela Mesa e que hoje decidiram seguir a carreira individualmente. Os componentes também alegam que a Mesa de Samba tem contribuído de forma positiva com o Estado e o trabalho é reconhecido lá fora fazendo conexões com outros músicos.

Foto: Joás Benedito
Com o passar do tempo, o samba autoral vai conquistando diversos artistas locais que, de certa forma, lutam para que o Estado possa ser também uma referência. O trabalho coletivo com princípios e ideais comuns colabora para a criação de novos espaços que fortalecem o conceito do gênero musical como um meio de organização social. A exemplo disso temos uma das escolas mais antigas do Recife, a Escola de Samba Gigante do Samba – fundada em 1942 – que todos os anos disponibiliza aulas de música para crianças a partir dos 6 anos de idade. Para os sambistas e integrantes da Escola, Belo Xis e Luiz de Oliveira, junto com Hilton de Oliveira e Manuelzinho da Gigante, o gênero samba está cada vez mais conectado ao Estado e sempre terá a interação dos músicos com as comunidades, independentemente da localidade.

Foto: Divulgação
Em contrapartida, cantores, compositores e intérpretes locais relatam essa ligação com o gênero como “vinda de berço”, influenciados por algum ente familiar ou amigo. Como não poderia ficar de fora, a ala feminina também marca presença nesse trajeto musical. A cantora Karynna Spinelli acredita que essa sua ligação com o samba vem desde que estava na barriga de sua mãe, embalada pelas composições de Beth Carvalho, Clara Nunes, entre outros que segundo ela fizeram parte do seu repertório musical quando criança. Ainda segundo a cantora, o gênero é uma forma de vida que deixa o indivíduo em estado de felicidade. “O samba te deixa mais feliz, mais ‘gente’... Mas o samba para mim hoje é uma bandeira, uma devoção e um compromisso”, reforçando a ideia de que Pernambuco tem uma história influenciada pelo samba.

Karina ainda fala que é a favor da música autoral e não tem nada contra o fato de interpretar as composições de outro compositor. “Não podemos querer que cantem nossas músicas se não cantamos as dos outros compositores. Acho que precisamos continuar nos articulando para que nossas músicas toquem e que as pessoas passem a conhecê-la”, relata.
Foto: Divulgação


Percussionista e intérprete, Gerlane Lops afirma que as composições vão surgindo naturalmente, deixando-a lisonjeada por dividir seus trabalhos nos palcos com sambistas e intérpretes que vivem para o samba. “Hoje, tenho o privilégio de dividir palco com o Belo Xis, um cara que vive nessa área do samba há tanto tempo e com compositores que têm mais de 500 composições como dona Selma do Samba, que é um doce de pessoa”, afirma. A cantora já tem 15 anos de carreira e realizou shows voltados para o gênero “sambístico” na divulgação do CD Gerlane Lops “Da Branca, que reúne músicas autorais com clássicos do samba e relembrando canções e interpretações de grandes mestres, como Paulinho da Viola, Chico Buarque, Clara Nunes, além de canções de compositores pernambucanos, como Ingratidão, de Isaias do Cavaco, e A Mesma Rosa Amarela, de Capiba.

Outra dama do samba pernambucano é a cantora, compositora e instrumentista Adryana BB, que teve sua ligação com o samba no tempo em que morou no Rio de Janeiro. Para Adryana, a tradição do samba pernambucano já está consolidada, através das rodas nos morros e nas escolas de samba. “Muita gente sempre fez rodas de samba nos morros e não tinha oportunidade de mídia, por ser mais difícil de divulgar algo antigamente. Hoje, o samba de Pernambuco se renova com força total e definitiva produzindo artistas e compositores de qualidade mundial”, afirma.
Foto: Val Lima


No cenário musical, há momentos em que se confunde o pagode com o samba e se cria uma dúvida se o público realmente sabe do que se trata cada gênero. Quando indagada sobre essa questão, Adryana explica que a força do pagode é relevante perante a mídia nacional, e chega naturalmente às diversas classes, porém “o samba nasce do povão”. Para ela, as pessoas sabem a diferença, o que falta são condições semelhantes às superproduções que são feitas em torno do pagode. O samba pernambucano apresenta riquezas e diretrizes que refletem toda a sua força multicultural, afinal, em cada Estado onde o gênero se manifesta, ele ressalta elementos e características próprias, como aqui em Pernambuco onde há elementos da música afro.

Nessa vertente, o samba pernambucano também se depara com o cantor e compositor Jorge Riba. Criado no Morro da Conceição, o músico vem há mais de 30 anos se dedicando ao desenvolvimento e reconhecimento da cultura afrodescendente. Ex-integrante da Mesa de Samba Autoral de Pernambuco, fundador dos primeiros afoxés do Recife – principal incentivador da criação de blocos afros e afoxés do Estado – Jorge trouxe de volta, aos mais esquecidos, a beleza da composição de um verdadeiro samba de raiz. Seu Riba, como é conhecido, é responsável pela reunião de várias rodas de samba tanto em Olinda quanto no Recife, onde reinam a tradição da velha guarda desse gênero, que agrada a todos.
Foto: Divulgação


Independentemente de sua origem, o samba vai compondo uma linguagem própria, criando laços entre diversos personagens com diferentes histórias e estilos de vida, mostrando que ele é, de fato, vivenciado em conjunto, ou seja, sem fazer distinção de classe, idade, cor ou raça.




Serviço:
Roda de Samba Autoral
Sábados das 18h às 21h – A cada 15 dias
Local: Bar Livraria Exposição Almanaque, em Olinda.

Aniversário da Mesa de Samba Autoral de Pernambuco
Clube Atlântico, em Olinda.
28 13h às 18h

Para mais informações:



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